Categoria que representa 82%
da tropa lança movimento para eleger candidatos. Grupo reclama da lei que
regulamenta benefícios e promoções. Ministério da Defesa não reconhece
associações e considera a mobilização eleitoreira
![]() |
| O vereador Fabrício da Aeronáutica com o presidente Bolsonaro: decepção após campanha eleitoral de 2018 |
Um movimento político de militares reservistas e reformados tem causado desconforto ao
Ministério da Defesa. Intitulado Praça
Vota em Praça — eu apoio, ele é vinculado às associações que tentaram,
sem sucesso, alterar o Projeto de Lei (PL) 1.645/2019, que reestruturou as
carreiras nas Forças Armadas e foi sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro em dezembro,
convertendo-se na Lei 13.954. O objetivo da mobilização é lançar, em todo o
país, candidatos identificados com os interesses da base da hierarquia militar.
O primeiro teste será nas eleições municipais deste ano.
Os líderes do movimento, embora
tenham participado ativamente da campanha presidencial
de Bolsonaro, agora reclamam do tratamento dispensado pelo governo aos cabos,
sargentos e suboficiais. Por essa razão, decidiram recrutar pré-candidatos para
a defesa dos interesses desse segmento, que representa 82% da tropa. Trata-se
de 631 mil pessoas, para um contingente de 770 mil ativos, inativos e
pensionistas.
“A aprovação da Lei 13.954 está conseguindo fazer algo com a tropa das
Forças Armadas que nem os governos de esquerda conseguiram ao longo dos anos:
conseguiu dividir a tropa entre oficiais e graduados, ativos e inativos; ou
seja, conseguiu dividir aqueles que formatam a instituição de maior
credibilidade junto ao povo brasileiro”, afirma o vereador de Guaratinguetá
(SP) Fabrício Dias Júnior (MDB), um dos idealizadores do movimento Praça Vota
em Praça. Suboficial reformado, mais conhecido como Fabrício da Aeronáutica, o
militar foi um atuante cabo eleitoral de Bolsonaro durante a campanha
presidencial. Nas redes sociais, ele ainda exibe uma foto ao lado do atual
chefe do governo.
Procurado pelo Correio para
comentar o assunto, o Ministério da Defesa demonstrou insatisfação com a
articulação política dos reformados e reservistas.
“Ressaltamos que as
autointituladas 'Associações de Praças', como essa associação 'Praça vota em
Praça', não representam os militares. Aliás, a Lei nº 6880/1980 (Estatuto dos
Militares) proíbe o uso, por organização civil, de designações que sugiram
vinculação às Forças Armadas, exceto no caso de clubes e outras entidades com
fins de assistência social”, afirmou, em nota, a pasta militar.
Outro idealizador do Praça Vota em Praça, o suboficial da reserva da
Aeronáutica, Márcio Garcia, explica que o movimento político surgiu após a
constatação da necessidade da criação de um cadastro, em nível nacional, de
todos os militares que ocupam ou que desejam ocupar cargos políticos. “Essa
necessidade foi identificada durante as discussões do PL 1.645 dentro do
Congresso Nacional, quando vimos que não temos nenhuma representatividade
naquele local, fato que comprometeu o alcance dos nossos objetivos”, disse o
militar.
“Poderíamos ter modificado o PL 1.645 no Congresso de forma que não
atrapalhasse os trâmites e os prazos para promulgação. Com a experiência e
vivência dos nossos praças, na maioria oriundos de famílias simples, teríamos
muito a contribuir com a sociedade civil, bem como com a estrutura política
nacional”, acrescentou.
Diferentemente do Ministério da Defesa, o Congresso Nacional tem aberto
um canal de interlocução com as associações de reformados e reservistas. Em
dezembro, para garantir a aprovação do PL 1.645 no Senado, o vice-líder do
governo na Casa, Izalci Lucas (PSDB-DF), costurou um acordo com o Palácio do
Planalto que permitiu a retirada de todas as emendas que haviam sido
apresentadas à proposta. Em troca, ficou acertado que, a partir de fevereiro
deste ano, uma comissão seria criada para discutir a possibilidade de correção
de eventuais distorções do Projeto de Lei.
631 MIL
Número estimado
de praças no Brasil. Esse número corresponde a cabos, sargentos e
suboficiais.
Candidatos em 9 estados
O movimento Praça
Vota em Praça possui um catálogo com os contatos de dezenas de pré-candidatos
espalhados por nove estados do país. São postulantes aos cargos de prefeito,
vereador, deputado federal, senador e até mesmo presidente da República. Um
deles é Gilson Gomes de Oliveira, subtenente da reserva do Exército, advogado e
assessor jurídico do movimento político. “Meu projeto é ser candidato
independente à presidência da República”, apresenta-se o militar. “A exemplo
dos membros das forças auxiliares, como os policiais militares, precisamos
reforçar a representação política dos praças das Forças Armadas”, argumenta
Oliveira, do estado de Goiás.
Ao reclamar da
aprovação do Projeto de Lei 1.645 (atual Lei 13.954), ele diz que o governo
falhou ao tratar, em uma mesma proposta, da reestruturação das carreiras e da
questão previdenciária. Além disso, para o militar, essas mudanças deveriam ter
sido objeto de uma discussão aprofundada antes de serem levadas ao Congresso.
Como os demais
líderes do movimento político, Oliveira expressa descontentamento com o
presidente Jair Bolsonaro. “Durante a campanha, Bolsonaro prometeu que, se
eleito, iria valorizar os militares. Mas, infelizmente, eu nunca vi um governo
tão cruel com os praças como este que está aí. Nem mesmo os ex-presidentes
Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma foram tão cruéis com a gente”, lamenta
o pré-candidato.
Já o suboficial
da reserva da Marinha Antônio Carlos de Aragão, mais conhecido como Comendador
Aragão, é pré-candidato a prefeito do município de Japeri, no Rio de Janeiro.
Presidente nacional da Associação Bancada Militar, ele é aliado do movimento
Praça Vota em Praça, mas também defende candidaturas de membros do topo da
hierarquia. “Desde que eles se comprometam não só com os interesses dos
oficiais, mas de toda a tropa”, ressalta o pré-candidato.
Por:Redação/CB



Postar um comentário