Ricardo Galvão/Foto Reprodução
Pontes e Galvão se reuniram
por cerca de duas horas na manhã desta sexta. A exoneração ocorre depois de
ameaças do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de demitir quem quebrasse sua
confiança.
Se quebrar a confiança, vai
ser demitido sumariamente. Perdeu a confiança, no meu entender, isso é uma pena
capital", disse. "Eu lamento que alguns tenham mandato, não sei se no
caso dele tem mandato ou não. A gente não pode tomar uma decisão mais drástica
no tocante a isso, porque o estrago é muito grande", afirmou na quinta
(1º).
No dia 21 de julho, Galvão afirmou que poderia até ser demitido,
mas que o Inpe não poderia ser atacado. "A única coisa que o Inpe faz é
colher dados, nada mais, mas havia insatisfação sobre isso. Isso estava
concentrado no MMA [Ministério do Meio Ambiente] e eu não esperava que subisse
à presidência da república, mas aparentemente subiu, não sei exatamente pelo
esforço de quem", disse ao jornal Folha de S.Paulo.
Os ataques ao trabalho do Inpe começaram quando os dados do
desmatamento do Deter (projeto Desmatamento em Tempo Real) -que visa auxiliar o
trabalho do Ibama de fiscalização e combate ao desmate- mostraram acentuado
crescimento, com aumento de 88% em junho, em relação ao mesmo mês de 2018.
O Inpe vem rebatendo todas as acusações feitas por Bolsonaro e
Salles. Nesta quinta, o instituto divulgou nota na qual afirma que seu trabalho
"sempre foi norteado pelos princípios da excelência, transparência e
honestidade científica".
O ministro Marcos Pontes, nos bastidores, demonstrava apoio ao
Inpe e aos dados do desmatamento. A situação começou a se alterar após a
publicação, em rede social de Pontes, de um comunicado no qual o ministro
afirmava compartilha a "estranheza" de Bolsonaro em relação aos dados
de desmate.
Em seguida, no encontro anual da SBPC (Sociedade Brasileira para
o Progresso da Ciência), em Campo Grande, Pontes defendeu restrições à
publicação de dados do desmatamento.
Por fim, o diretor do Inpe deveria participar de uma reunião
sobre dados de desmate que ocorreu na quarta (31), com Salles, Pontes e
representantes do Inpe e do Ibama. Galvão, porém, foi desconvidado de última
hora e teve seu encontro com o ministro da Ciência adiado para esta sexta.
O engenheiro Ricardo Galvão foi nomeado diretor do Inpe em 2016
pelo então ministro Gilberto Kassab, do MCTIC (Ministério da Ciência,
Tecnologia, Inovações Comunicações). Na época, Galvão era professor titular da
USP e presidente da Sociedade Brasileira de Física. Também é membro do conselho
da Sociedade Europeia de Física e ex-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas
Físicas.
Sua nomeação na época saiu com quatro meses de atraso. À época,
Galvão disse acreditar que a demora não se dava por má vontade política, mas,
sim, por uma questão de "conjectura" do governo.
"Estou a par da maioria das questões. Como já fui do Inpe
(entre 1986 e 1990) ainda conheço algumas pessoas. Desde que fui indicado,
tenho tido conversas e já fiz um levantamento razoável dos problemas",
disse Galvão então. Pesquisadores especulavam que a demora teria a ver com
um desprestígio da pasta.
Galvão é graduado em engenharia de telecomunicações pela UFF
(Universidade Federal Fluminense), mestre em engenharia elétrica pela Unicamp
(Universidade Estadual de Campinas) e doutor em física de plasmas aplicada pelo
MIT (Massachusetts Institute of Technology), com livre-docência em física
experimental pela USP (Universidade de São Paulo). É membro titular da Academia
de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
As informações sobre desmatamento produzidas
pelo Inpe -tanto o Deter quanto o Prodes, que mede o
desmate anual- são públicas e podem ser acessadas pelo
portal TerraBrasilis, do Inpe.
Por: JB
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