O filme “Marighella” — aquele que o diretor
Wagner Moura dizia que estava sendo censurado — vai estrear
no circuito brasileiro no dia 14 de maio.
A informação foi confirmada hoje pela O2 Filmes,
produtora do longa, e pela Paris Filmes, a distribuidora.
Apesar das sucessivas derrotas sofridas no campo político a
esquerda brasileira não baixa a guarda, principalmente no campo cultural. Uma
prova viva é o filme do ator, e ex-capitão Nascimento, Wagner Moura sobre a
vida do guerrilheiro comunista e terrorista Carlos Marighella. Financiado
através de renúncia fiscal proporcionada pela Lei Rouanet, o filme não tem
compromisso com a bilheteria, mas foi realizado para ser referência e
inspiração para militância.
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| Marighella Seu Jorge |
As falsificações do filme começam na escolha do ator que
interpreta o terrorista, Seu Jorge. A motivação é clara, Wagner Moura tenta
criar a narrativa de que a repressão aos movimentos revolucionários, durante o
governo militar, ao invés de uma motivação político ideológica, na verdade,
teriam uma motivação racista.
A mentira beira o
ridículo quando o personagem Delegado Lúcio afirma que “matar um preto é o mesmo que
matar um vermelho”. O que a produção deixa de mostrar é que os grupos
armados que operaram no Brasil eram majoritariamente formados por jovens
universitários de classe média e brancos.
Presos políticos libertados em troca da liberdade do embaixador dos EUA,
em 1969. Sequestro promovido pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8)
e pela Ação Libertadora Nacional (ALN)
Não bastassem as contradições mais
evidentes a promoção de Marighella ao status herói é um acinte a inteligência
do espectador medianamente informado. Basta uma breve leitura de sua “obra
prima”, Mini Manual do Guerrilheiro Urbano, para deparar-se com um homem de
natureza violenta comprometido de tal maneira com seus objetivos políticos que,
em sua visão, os métodos mais violentos são justos se contribuem com a causa.
No capítulo que trata do apoio
popular pode-se notar o respeito do autor pela democracia e seu compromisso com
os direitos fundamentais:
ATACANDO
DE CORAÇÃO ESTA FALSA ELEIÇÃO E A CHAMADA “SOLUÇÃO POLÍTICA” TÃO APELADORA AOS
OPORTUNISTAS, O GUERRILHEIRO URBANO TEM QUE SE FAZER MAIS AGRESSIVO E VIOLENTO,
GIRANDO EM TORNO DA SABOTAGEM, DO TERRORISMO, DAS EXPROPRIAÇÕES, DOS ASSALTOS,
DOS SEQUESTROS, DAS EXECUÇÕES, ETC.
(Carlos
Marighella, Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano (página 57))
Sem compromisso com o valor artístico da obra o filme é uma
sucessão de clichês, com personagens planos. Enquanto todos os atos dos
protagonistas são justificados em nome de um ideal, o antagonista é um policial
completamente frio, racista e violento, que não se intimida ao submeter sua
vítima a intermináveis sessões de tortura.
O filme é uma obra para reforçar no imaginário popular e dos
militantes o mito fundador da luta contra a ditadura militar, alicerce
unificador do pensamento da esquerda nacional.
A tentativa de
reescrever a história e torcer os acontecimentos para que se adequem a cartilha
dos progressistas levou Wagner Moura a traçar um paralelo entre a morte de
Marighella e da vereadora Marielle Franco. Como se ambos atuassem em uma mesma
esfera, uma representante legítima de um setor da sociedade e um terrorista
confesso. Para mim o comparativo é uma ofensa a memória de Marielle que, apesar
da ideologia, foi eleita pelo voto popular e atuava dentro da legalidade.
História torna-se ainda mais inacreditável quando em entrevista
o diretor da película insinua que a vereadora foi executada por agentes do
governo, de forma semelhante ao terrorista. Como se as milícias do Rio de
Janeiro fossem, de alguma forma, organizadas, mantidas ou lideradas por estruturas
oficiais do governo.
Mentira sobre mentira, o diretor e os atores do filme denigrem a
imagem do país, entre palavras de ordem, entrevistas e manifestações
constrangedoras.
É muito provável que o filme seja um fracasso retumbante nas
bilheterias nacionais, e para seus produtores isso pouco importa.
No Brasil, onde a cultura está dominada pelo viés esquerdista, a
produção pode ter alguma repercussão em festivais e na crítica, afinal os
devotos da lacração estão sempre de plantão. Mas o grande triunfo da obra para
seus criadores será sua inclusão na cinemateca de referência, com exibição por
anos em universidades, sindicatos e grupos de estudos de forma a tornar-se mais
uma peça na narrativa para a consolidação e unidade da esquerda brasileira.
Ao menos um consolo, a crítica
alemã conseguiu captar a panfletagem do filme, fracasso no festival de Berlim.
Confira abaixo a análise do filme de Wagner Moura realizada
pelos principais jornais alemães:
Der
Tagesspiegel – Carlos Marighella, o bom terrorista,
15/02/2019
A luta revolucionária, como conceito, sofreu muito nos últimos
anos. Não só por causa do colapso do império soviético, antes disso o comunismo
já havia dado cabo de todos os revolucionários. As ilhas da resistência ficaram
cada vez menores: Cuba, Vietnã. No fim, alguns países isolados do mundo árabe.
[…]
Só na América Latina e – depois da eleição de Jair
Bolsonaro para presidente – em especial no Brasil, a crença na pertinência
da luta armada parece intocada. Um nome sempre a simbolizou: Carlos Marighella,
precursor intelectual do conceito de guerrilha urbana. […]
O herói de [Wagner] Moura é uma figura trágica. Por mais
convincente que ele pareça ser no seu sentimento de injustiça – e a junta
militar que tomou o poder em 1964 lhe dá motivos suficientes para isso – nenhum
caminho conduz da violência para a benevolência das massas. A não ser que se
esteja morto e transformado em lenda. E é exatamente essa mitificação que o
filme Marighella pretende. […]
Moura potencializa a imagem de outsider nobre com o fato de seu
protagonista ser o único negro do elenco, e isso apesar de Carlos Marighella,
com suas raízes indígenas e africanas, não exatamente se diferenciar de seus
compatriotas pela cor da pele. Ele era um mestiço, como 38% dos brasileiros.
Apresentá-lo como negro – e transformá-lo em alvo com uma frase
como “matar um negro significa matar um vermelho” – é sair do conflito político
e transformá-lo num conflito racista. E de uma maneira que todos assim o
percebem.
RBB – Epopeia cansativa, 16/02/2019
“Não somos terroristas”, grita Marighella aos reféns de um
assalto a banco. “Somos revolucionários!” Declarações como essa há um
pouco demais no filme. O herói tende a monólogos impulsivos e discussões que,
apesar da determinação com que são feitas, soam estranhamente sem vida. Dúvida
e ambiguidades não estão previstas em Marighella. Isso vale também, é claro,
para o protagonista e seus aliados – e sobretudo para o grande antagonista, o
investigador Lúcio.
TAZ – A guerrilha sempre tem
razão, 15/02/2019
Wagner Moura quer, inconfundivelmente, criar um monumento para
Marighella. E Marighella certamente foi uma personalidade carismática. Só que a
carência de domínio e um distanciamento em relação a material histórico e
pessoa levaram a uma epopeia. Este filme não conhece contradições, por exemplo
não tematiza as teorias imperialistas e capitalistas unidimensionais da
esquerda de então. Ele prefere sobretudo desabonar a direita.
O sistema de segurança brasileiro de então, de fato em parte
fascista, é extensivamente exibido na figura do agente assassino Lúcio, e a
reconstrução de cenas de tortura ultrapassa os limites do cinematicamente
suportável. A violência institucional obtusa e de fato existente não precisa
ser exibida de forma tão naturalista e duradoura como foi feito neste
filme.
A estética “Marighella” de Wagner Moura é assim
involuntariamente reveladora. Ela revela sobretudo um corte significativo na
mentalidade do populismo de esquerda na América Latina e como este, hoje,
ajeita a história a seu gosto.
Penetrante e grotesca é a representação da influência do governo
americano nos acontecimentos na América Latina. Até hoje ela serve ao populismo
de esquerda local como desculpa para o próprio fracasso.
Por: Redação/Blitz Digital




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